Passa o passado passando

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Cheguei a conhecer o poeta Quincas Rafael. Estive na sua casa, em Jabitacá, distrito de Iguaracy - PE, onde o mesmo me mostrou um baú cheio de fitas cassete gravadas com cantorias de viola. Pense num acervo! Um baú daqueles eu só vejo parecido os de Dedé Monteiro, que, aliás, tá quase soltando outro no mundo. Mas falando em Quincas, eis a glosa abaixo. Que grandeza. Coisa eterna...
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Passando eu vejo o passado
Nesta vida como passa
E como seta traspassa
Meu viver já traspassado
É um sofrer compassado
A minha vida passada
A lembrança é compassada
Pode ir me traspassando
Passa o passado passando
Como passa a passarada

Talvez eu teje lá


Vai poeta! Vai como um passarinho

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Itapetim perdeu de vista hoje o poeta Zezo Correia. Mas como poeta sai da vista, mas não sai da vida, ficam versos como estes deixados por ele. Versos de quem sabia ver e dizer o que viu... de quem viveu e partiu como um passarinho: botando beleza na oportunidade de viver.

A vida de um passarinho
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Canta a cauã com agouro
Em cima de uma aroeira
No ninho da quixabeira
Canta a casaca-de-couro
Eu admiro é um louro
Lá no oco apertadinho
Dentro criar um filhinho
Com tanta satisfação
Causando admiração
A vida de um passarinho
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Vê-se um maracanã
Rasgando espiga de milho
Pra dar comer a seu filho
Todo dia de manhã
Também vejo a ribaçã
Pôr pelo chão sem ter ninho
Deixar o ovo sozinho
Depois tirar sem gorar
Isso faz admirar
A vida de um passarinho.

BARRIGA É BARRIGA...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Botei logo a arte dos dois pra não ficar devendo a ninguém. Pra quem tá com dificuldade de reconhecer, eu ajudo: o cabeção é o Arnaldo Jabour, que escreveu a idéia aí embaixo, e o outro, com cara de senador, é o Chico Anísio, que teve a idéia aí embaixo. Eu achei que não podia esconder de quem não a leu ainda. Vê que arretado:

Barriga é barriga, peito é peito e tudo mais.
Confesso que tive agradável surpresa ao ver Chico Anísio no programa do Jô, dizendo que o exercício físico é o primeiro passo para a morte. Depois de chamar a atenção para o fato de que raramente se conhece um atleta que tenha chegado aos 80 anos e citar personalidades longevas que nunca fizeram ginástica ou exercício - entre elas o jurista e jornalista Barbosa Lima Sobrinho - mas chegou à idade centenária, o humorista arrematou com um exemplo da fauna: a tartaruga com toda aquela lerdeza, vive 300 anos. Você conhece algum coelho que tenha vivido 15 anos? Gostaria de contribuir com outro exemplo, o de Dorival Caymmi. O letrista compositor e intérprete baiano era conhecido como pai da preguiça. Passava 4/5 do dia deitado numa rede, bebendo, fumando e mastigando. Autêntico marcha-lenta, levava 10 segundos para percorrer um espaço de três metros. Pois mesmo assim e sem jamais ter feito exercício físico viveu 90 anos.
Conclusão: esteira, caminhada, aeróbica, musculação, academia? Sai dessa enquanto você ainda tem saúde... E viva o sedentarismo ocioso!!! Não fique chateado se você passar a vida inteira gordo. Você terá toda a eternidade para ser só osso!!!
Então: NÃO FAÇA MAIS DIETA!!
Afinal, a baleia bebe só água, só come peixe, faz natação o dia inteiro e é GORDA!!!
O elefante só come verduras e é GORDOOOOOOOOO!!!
VIVA A BATATA FRITA E O CHOPP!!!
Você, menina bonita, tem pneus? Lógico, todo avião tem!
E nunca se esqueçam: 'Se caminhar fosse saudável, o carteiro seria imortal!

Flores murchas

Tá chegando o dia das crianças e a mídia já deu a largada desenfreada da corrida do consumismo. Mas com poeta é diferente. Poeta provoca a crítica, chama pra reflexão e dana os dois pés no freio da alienação. Lê Diniz Vitorino e compara com o que vai sair na televisão. Depois tu me diz.


Criancinhas andarilhas

Anjos em cães transformados

Fetos da pobreza, filhas

De loucos desajustados

Oriundos das entranhas

De mães sem almas, estranhas

Nunca vistas na cidade

Que em recantos escuros

Pecam gerando os frutos

Germes da sociedade
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Filhos do morro e do mangue

Intrusos desde meninos

Por terem no corpo o sangue

Dos ancestrais peregrinos

Que na miséria viveram

Desiludidos encheram

De revolta o peito aflito

Morreram como indigentes

Deixando pros descendentes

Seu infortúnio maldito
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São frutos de pais nefandos

Células da carne odierna

Subalternos dos desmandos

De quem a pátria governa

De nós mesmo que não temos

Compostura e elegemos

Governos irresponsáveis

Que sem pena de ninguém

Fazem dos homens de bem

Loucos irrecuperáveis
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Alvo das negras repulsas

Dos seres sem competência

Rosas sem seivas, expulsas

Dos jardins da inocência

Companheiras da penúria

Machucadas pela fúria

Do vendaval criminoso

Bonecas vestindo trapos

Rasgadas pelos sopapos

Do destino impiedoso
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Jovens que tem como escolas

Palavrões do banditismo

Por alimento, as esmolas

Do sujo capitalismo

Por morada, a noite escura

Por leito, a calçada dura

Por conselheiro, ninguém

E por carrasco, o imprevisto

Por defensor, Jesus Cristo

Porque foi mártir também
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Ovelhinhas desgarradas

Dos apriscos sociais

Até serem metralhadas

No covil dos marginais

Depois de mortas no chão

Nem flores murchas terão

Cobrindo as carnes geladas

Mas terão pousadas novas

Como inquilino das covas

Darão descanso às calçadas

Se correr ainda pega!

Acabei de saber através do pessoal da Revista Eletrônica Catorze. Não estranha, não. A revista é nova mesmo, mas tá prometendo. Oh a chamada da bicha: "jornalismo cultural com a sua cara". Visita lá: www.revistacatorze.com.br.

Funcultura e Cine Mais Cultura

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Equipes da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco - Fundarpe estão cortando o interior promovendo capacitações para o Funcultura e para o Cine Mais Cultura. Ontem e hoje repousam em Salgueiro, aí quem não foi não dá mais pra ir, né! Só que a caravana segue... e os cães ladram (escrevi só porque já vi isso em algum lugar). O certo é: a caravana segue e quem quiser vai atrás:
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CAPACITAÇÕES FUNCULTURA


PETROLINA - dias 24, 25 e 26/09, no Centro de Convenções Senador Nilo Coelho

TRIUNFO - dia: 25/09, no Cine Teatro Guarany

CARUARU - dia 30/09, na Associação Comercial e Industrial de Caruaru

Todas nos horários de 9h às 12h e 14 às 17h

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CAPACITAÇÕES CINE MAIS CULTURA

TRIUNFO - dia 24/09, das 14h às 17h, no Cine Teatro Guarany

Pra saber mais acessem: http://www.triunfob.blogspot.com/ e www.fundarpe.pe.gov.br

Tá miudinha, mas se catucá cresce...




Churrascaria Casa de Taipa


E trança vara... e bate o barro... e barro bota, que é pra casa levantar. Em São José do Egito o que se levantou foi uma churrascaria, a Casa de Taipa. Fica na beira da pista, a 3km da cidade no sentido de quem vai pra Tabira. Lugarzinho agradável, visse! Nas paredes tem santos, utensílios sertanejos e cordéis do poeta Felipe Júnior. Num recanto, um carro de bois que funciona como palco. O negócio é criativo. Bom de se ver, de se beber e de se comer. Um forno de lenha com umas panelas de barro é pra quebrar fastio de qualquer um. Vai lá pra ver!
Ah, e isso aqui num é comercial, não viu!?! Num é interesse, e pela interessança do lugar!
(Fotos de Cláudio Gomes)




Mais coisa boa

Pra se deleitarem mais com a 22ª Missa do Poeta de Tabira e outras mais acessem:

Pra quem tá ou vai pra Recife

segunda-feira, 21 de setembro de 2009


Zé Marcolino gostou demais

Excelente! É o primeiro adjetivo sem arrodeios que eu encontro agora pra registrar a 22ª Missa do Poeta, realizada em Tabira, numa homenagem rica ao poeta Zé Marcolino. Na verdade perdi o grande dia, o dia da missa propriamente dita. Mas tive lá em três outros dias. Todos também muito bons: Festival de Violeiros; Lançamento de livros, entrega de prêmios literários e declamações e a fantástica Mesa de Glosas, este ano em sua 13ª edição. Ainda perdi o encontro de sanfoneiros e soube depois que o dia da missa foi dum jeito bom que poucos sabem descrever. Zé Marcolino, tenho certeza, gostou demais!

Belezas da minha terra

Em Tabira tive o prazer de conhecer o poeta Zé de Mariano. Ele me mandou um dos seus versos. Vale a pena dividir com vocês:

Quem não conhece belezas,

Venha ver no meu sertão.
Por exemplo, uma morena
Em uma noite de São João,
Um caboclo dançarino
Dançar pancada de sino,
Um canário cantador,
Um sabiá na gaiola,
Dois cantadores de viola
E um vaqueiro aboiador.
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Um carro de boi cheirando
A fumaça do cocão,
Um vaqueiro perfilado
Vestido no seu gibão,
Um cascavel enroscado,
Cachorro tangendo o gado,
Sem relho, cipó, nem pau,
A folhagem ressurgindo
E um tronco de pau servindo
De palco pra um bacurau.

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Um triângulo com três pedras
Segurando uma panela,
O fogo embaixo aquecendo
E o feijão pulando nela.
Um cão de caça acuado,
Um formigueiro assanhado
Chamando um tamanduá,
Um engenho de rapadura
Botando liga e doçura
Na cera do arapuá.

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Uma noite enluarada
Inspirando um seresteiro,
A defesa de mutucas
Com ramos de marmeleiro,
Um garrote estrupiado,
Dois bois puxando um arado,
Duas casacas de couro,
João de barro em sua casa
E um sapo engolindo brasa
Pensando ser um besouro.

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Acordar ouvindo o canto
Das águas na cachoeira,
Ver uma cabra parindo
Na sombra de uma aroeira,
Uma roça encoivarada,
Bem no centro uma latada
Um pote com água fria.
Ver um anum soluçando
E uma cigarra cantando
No pino do meio dia.

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Aqui a serra estremece
Com o trovão da trovoada,
O vento leva consigo
Cheiro de terra molhada,
Um carão sem companhia
Faz prece na noite fria
Pedindo a DEUS pra chover,
Rouxinol sai da biqueira,
Se exibe na comieira
Esperando o sol nascer.

Santa mesa de glosa

De tão encantado com a Mesa de Glosas, aliás a primeira que eu fui de 13 já realizadas, fiz esses versos aí debaixo. Participaram os poetas Genildo Almeida (Pitu), Clécio Rimas, Adeval Soares, Genildo Santana, Felipe Amaral, Sebastião Dias, George Alves, Osvanildo Almeida, Albino Pereira, Josivaldo Rodrigues e Gonga Monteiro. Dedé intermediou. A APPTA realizou. Que os deuses de todas as crenças orquestrados pelo Deus da Poesia continue abençoando a todos.

Não lembro do que fazia
Pra perder por doze anos
Um dos mais sobre humanos

Banquetes da poesia
Postos à mesa se via
Onze apóstolos poetas
Servidos como profetas
Com pãos em forma de mote
Pra com o vinho do dote
Fazerem ceias completas
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Apóstolo em defesa
Dedé, fogo que não arde
Entitulou-se covarde
Por não sentar-se à mesa
Foi um gesto de nobreza
Onde a inspiração vadeia
Como o farol da lua cheia
Descendo em focos de luz
Era a presença de Jesus
Completando a santa ceia
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A cena maravilhosa
De minh’alma tomou conta
Pensei de cabeça tonta
É santa a mesa de glosa
O que poucos fazem na prosa
Sem que ninguém interfira
Cada escolhido tira
De arquivos celestiais
Fazendo-se imortais
Da cidade de Tabira
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Quem ver Sebastião Dias
Sem cantar e sem o pinho
Enxerga ali um adivinho
Pois são gênias as suas crias
Ele faz alegorias
Um Deus com ele conspira
Não há tema que lhe fira
Toda fala é glamorosa
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira
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Tiram lágrimas e risos
Os versos ricos de Gonga
Como um canto de araponga
Sobre a vida faz juízos
Com seus torpedos precisos
George Alves faz a mira
Aperta o dedo e atira
Mas a bala é carinhosa
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira
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De Genildo tinham dois
Um Almeida, outro Santana
Um tem alcunha de cana
Outro é além de depois
Entre porquês e apois
Todo mote os inspira
Quem não ver diz ser mentira
Quem ver diz: ôh noite honrosa
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira
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O Felipe abana a mão
Como tá cortando palma
Mas o verso sai da alma
Invade a imensidão
Albino do bigodão
Rima como quem se vira
No cão ou numa catira
Mas seu verso cheira a rosa
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira
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O poeta Clécio Rimas
Com bravura de herói
Pedra por pedra constrói
Um canteiro de obras primas
Nas fissuras passa limas
Toda aspereza tira
Se aperreia, mas não pira
Pra pintar, a tinta dosa
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira
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Josivaldo fala manso
Mas dá conta do recado
Tem um versejar pausado
Como curva de remanso
Osvanildo faz descanso
Enquanto o mote gira
Chegada sua vez suspira
Cruza a rima, o verso entrosa
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira
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Recrê em astros lunares
Ou começa a acreditar
Quem vê gente versejar
Igual Adeval Soares
Vai nas serras, vai nos mares
Vai no barro, na safira
No amor, na dor, na ira
Grita, chora, sofre e goza
É santa a mesa de glosa
Da cidade de Tabira

Em São José também choveu

No domingo (20) corri pra São José do Egito pra ver o 2º Festival de Cantadores do Pajeú, uma homenagem ao poeta Zé Catota, falecido em abril passado. Muito bom, público até o fim (e olha que terminou mais de uma hora da madrugada). Quem acompanha festivais sabe que é danado pra opinião do público não bater com a dos jurados. Lá deu igual: primeiro lugar para Adelmo Aguiar e Denílson Nunes. Fico devendo alguns versos que choveram por lá.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009


quarta-feira, 16 de setembro de 2009



50 anos da Rádio Pajeú, a pioneira do sertão pernambucano


Desculpem, mas não estou conseguindo dar espaço entre linhas. Daí as poesias abaixo aparecerem corridas e não separadas em 2 quadras e 2 tercetos (soneto de Cancão) e em 5 quadras (poema de Giuseppe Ghiaroni). Estou verificando se o problema é no blog ou no blogueiro. Não sei porque, mas desconfio que seja no segundo!

O ébrio

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Há um ébrio aqui, parede-e-meia
Que o infortúnio lhe fez um sorteado
Descalço, sem pão, esfarrapado
Sendo o mais conhecido na cadeia
Chora, canta, soluça, palavreia
Pela voragem do vício deformado
Ninguém sente nem olha o desgraçado
Que por sorte desdita cambaleia
Vive fora de toda a humanidade
Caído às vezes nos bancos da cidade
Exposto à chuva, à frieza e ao mormaço
Enquanto tomba e tropeça sem alento
Este povo, de menos sentimento
Zomba e ri o tomando por palhaço
João Batista Siqueira - Cancão

A gramática no cordel

A poesia popular, em especial a literatura de cordel, foi uma fonte de informação, diversão e educação quase que única para muitas gerações de interioranos nordestinos. Muitos chegaram a aprender a ler e escrever com mãos e olhos num folheto. Feito de forma simples, com linguagem acessível e atraente, os versos continuam sendo uma riquíssima fonte de pesquisa e ensinamento. Eis alguns exemplos do professor e poeta paraibano Janduhi Dantas Nóbrega transcritos em seu livro A Gramática no Cordel:
Frase e Oração
A oração tem no verbo
base de sustentação
porque tem de haver verbo
para que haja oração;
já frase é enunciado
que tem comunicação.
Período
Período diz-se da frase
com uma oração ou mais.
Com uma oração é simples:
"Lélis leu todos os jornais";
com mais de uma, composto:
"Fiz e pintei o cartaz".
O sujeito
Meu bom sujeito, o sujeito
é o termo da oração
chamado de essencial
que pratica ou sofre a ação:
"A polícia prendeu Zé",
" foi levado à prisão".

Brenon disse de quem é!

O nobre Brenon Nunes de Freitas, aspirante causídico lá da Prata, manda dizer a quem interessar possa que o verso aí de baixo tem pai. Trata-se do senhor Giuseppe Ghiaroni, mineiro da cidade de Paraíba do Sul, poeta e jornalista. Cabra bom! Quem? Os dois.

Quem sabe de quem é?

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Conheci essa maravilha aí abaixo através do poeta Diomedes Mariano. Ele não conhece e autor e eu até hoje também não. Alguém aí pode ajudar?

A estudante, a casada e a perdida
Num tempo que vai longe em minha vida
E que eu lembro muito bem mesmo distante
Três amores eu tive: uma estudante
Uma mulher casada e uma perdida
A estudante eu amava afoitamente
Antes da escola mal o sol nascido
A casada na ausência do marido
E a perdida depois do expediente
Era no tempo das imagens belas
Escrevi um poema certa vez
Um poema inspirado em uma delas
Mas fiz três cópias para dar as três
E as três choraram de emoção profusa
Cada qual se sentindo retratada
Cada qual chorou lágrimas de musa
A estudante, a perdida e a casada
Assim algo encontrei de semelhante
Nos diversos amores desta vida
Que a casada tem algo da estudante
E que as duas têm muito da perdida.

Emídio de Miranda

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Recebo através de Cláudio Gomes, que por sua vez recebeu de Djacy Véras, o soneto abaixo. Grande e mais belo se conhecida sua origem. Eis um resumo: ao escrever, o autor estava nas últimas como se diz, vitimado por males alguns oriundos do alcoolismo. Dirigiu os versos a um amigo que se negou a pagar-lhe bebida. O poeta é Waldemar Emídio de Miranda, nascido no Recife, mas que cumpriu sua missão na terra entre as cidades de Serra Talhada, Arcoverde, Triunfo e Caruaru, tendo falecido em 1937. Vamos aos versos:

Tú, ventrudo burguês analfabeto,
Escultura rotunda da irrisão
Para quem o viver mais limpo e reto
Consiste em ser avaro e ter balcão;

Tú que resumes todo o teu afeto
No dinheiro - o metal da sedução,
Pelo qual negocias abjeto,
Tua esposa, teu lar, teu coração;

Escutas ó ignorantaço, o que te digo:
Esse ouro protetor, que é teu amigo,
Que te deu o conforto de um pachá,

Pode comprar qualquer burguês cretino,
Mas a lyra de um vate peregrino
Não compra, não comprou, não comprará.

Eu fui

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Cumprindo o que anunciei aqui, fui pro Festival da Prata. Não foi como foi anunciado, mas foi grande. Entre as muitas coisas incríveis, vou carregar comigo a declamação do poeta Enoc Ferreira e o show dos Vates e Violas, esses malucos por excesso de juízo que tão aí na foto. Pense que valeu a pena! Como diriam eles: quem num foi, ficou!

A prata é de Zé

Entre muitos patrimônios, a Prata é de Zé de Cazuza, o Homem Gravador como foi anunciado incansável e entusiasticamente por um locutor tipo “que figura arretada”! Quem me levou foi Annamélia, conhecida por lá do tanto que Jesus é pelo mundo. Aí eu junto os dois aqui: já vai com um tempo que ela me pediu uns versos em cima de um mote dele – Todo dia muda a cor / Do quadro da minha vida. Eu fiz esses:

O jovem

Até os dez eu queria
Logo quinze completar
Nos vinte fiz despertar
O senso da honraria
Hoje vejo cada dia
Como graça recebida
Valorizo cada ida
Pois a volta é um supor
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida

O maduro

Um novo quadro se pinta
Dizendo ao bom ouvinte
Quarenta não são dois vinte
Sessenta não são dois trinta
Não sei quem compôs a tinta
Da obra da despedida
Mas sinto os pincéis da lida
Negrejando sem clamor
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida

O velho

As orelhas tão crescendo
A vista ficando curta
O juízo de quem surta
E o sexo é só querendo
Aí pego percebendo
Tô na reta da descida
Que é mais curta que a subida
E a carga é só de dor
Todo dia muda a cor
Do quadro da minha vida

Na volta

Chegando no ponto de ônibus na volta pra casa - embora estivesse me sentido nela pelo acolhimento recebido - encontramos Antonio de Catarina. Grande figura, poeta respeitado em toda ribeira e nas ribeiras onde seu nome chegar. Antonio pediu para eu recitar um soneto de João Paraibano, entitulado Pajeú. Me orgulhei por puder exaltar o Pajeú lá no Cariri, por ser amigo 'conterrâneo' de João, por saber do soneto e por atender ao mestre Antonio de Catarina. Disse lá, todo gaboso, o que transcrevo aqui:

Pajeú

Pajeú, teu cenário me encanta
Desde a voz do vaqueiro aboiador
Ao verão que desbota a cor da planta
E a abelha que bebe o mel da flor

Do refúgio da caça que se espanta
No chiado dos pés do caçador
E a romântica canção que o rio canta
Na passagem do ano chovedor

Quando a chuva das nuvens inunda as grotas
O volume da água banha Brotas
E onde a curva do rio forma um U

Nasce um pé de esperança no teu povo
Tudo indica que Cristo quando novo
Aprendeu a caminhar no Pajeú

Antonio já tava com um copo meado de uísque. Deu um tapa na mesa e virou o restim.

PITO DO INQUILINO - Rolando Boldrin

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Prezado morador.

Gostaria de informar-lhe que o contrato de aluguel que firmamos há bilhões de anos está vencendo. É tempo de renová-lo. Só que agora temos que acertar alguns pontos fundamentais. Você precisa pagar a conta de energia. Está muito alta. Como é que você pode gastar tanto assim? O consumo de água: antes, eu fornecia água à vontade, pra você e pra sua família... hoje não disponho mais desta quantidade. Então, precisamos renegociar o uso que você tá fazendo dela. Comida: por que alguns na sua casa comem bastante e outros estão morrendo de fome? Você pode me dizer? O quintal da sua casa é grandão. Se você cuidar bem da terra vai ter alimento pra todo mundo. Ah, outra coisa. Você cortou as árvores... as árvores que davam sombra, que são responsáveis pelo ar que respiramos... pelo equilíbrio de tudo. O sol tá cada vez mais quente... você viu que o calor aumentou, né? É geleira derretendo, o nível do mar subindo... mar invadindo as praias... Então. Agora você precisa replantar as árvores depressa... senão você está literalmente.. FRITO. Os bichos e as plantas desse imenso jardim da sua casa devem ser cuidados e preservados. Eu procurei alguns animais que tinham aí... e não encontrei. Quando eu aluguei a casa pra você eles estavam aí... bonitinhos... você se lembra? Ah... o nosso céu cor de anil... tão cantado em verso e prosa... azul... céu de brigadeiro, como lá diz o outro... cadê? O céu tá com cores estranhas. Não dá nem pra definir. Parece sujo... Ah, por falar em sujeira. Que lixo, hein? Fui andar por aí... como na canção... o que encontrei foram objetos estranhos e variados pelo caminho. Isopor, pneus, plásticos... garrafas vazias... jornal velho... até papel de bala. Não vi os peixes que moram nos rios e lagos. Vocês pescaram todos? Beleza êin.. Onde estão esses peixes que eu estou falando? Bom. É hora da gente conversar. Você e Eu. Eu quero saber se você ainda pretende morar aqui... na minha casa. Se pretende... o que pode fazer pra cumprir o NOSSO contrato? Eu gostaria de você sempre morando na minha casa... mas tudo tem um limite, né? Então? Você pode mudar de comportamento? Pode? Pois eu vou ficar aqui aguardando sua resposta. Resposta só não, que de conversa eu ando cheio. Promessa... Não adianta. Eu quero ATITUDES.
Eu sou o DONO da casa... da terra...
EU sou DEUS.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


 
 
 
 
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