A Europa colhe o que plantou.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Após extorquir riquezas naturais e sustentar ditadores sanguinários, os europeus deixaram um lastro de miséria e violência. Tivessem promovido a democracia e o desenvolvimento daqueles países, não estariam agora erguendo muros.

Por Frei Betto*
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Todos acompanhamos, pela mídia, o fluxo migratório, rumo à Europa Ocidental, de africanos e árabes de países em conflito, como Síria, Iraque, Eritreia e Líbia. Em 2015, 332 mil imigrantes indocumentados já aportaram no Velho Continente. As águas do Mediterrâneo sepultaram, de janeiro a agosto deste ano, 2.500 fugitivos da miséria e da violência, em busca de um pouco de pão e paz. Em 2014, 3.500.
Um dos casos mais dramáticos é o dos 71 imigrantes encontrados mortos em um caminhão frigorífico nas proximidades de Viena, asfixiados pela falta de ventilação. O que fizeram os nazistas nas décadas de 1930 e 1940, agora se repete em escala menor, contudo de modo não menos trágico.
O papa Francisco tem feito insistentes apelos em defesa das vítimas de um mundo hegemonizado por um sistema no qual a livre circulação de moedas não encontra reciprocidade na livre circulação de pessoas. Ao capital todas as fronteiras se abrem. Às pessoas, todas se fecham, sobretudo se são negras ou muçulmanas. Estas tidas, pelo preconceito, como potenciais terroristas.
A União Europeia já decidiu que cada país membro deve abrigar determinada cota de imigrantes. Porém, quem foge da fome e da guerra ignora estatísticas. Quer um lugar ao sol neste mundo marcado pela desigualdade e indiferença.
É triste ver crianças perambulando por estradas e idosos se arrastando por baixo de cercas de arame farpado, alvos de policiais que tentam repeli-los com bombas de gás, cães farejadores, telas elétricas e cassetadas.
A Europa Ocidental colhe o fruto da semente maligna que plantou: séculos de colonialismo na África e de apoio a regimes ditatoriais no Oriente. Após extorquir riquezas naturais e sustentar ditadores sanguinários, os europeus deixaram um lastro de miséria e violência. Tivessem promovido a democracia e o desenvolvimento daqueles países, não estariam agora erguendo muros para deter a horda de imigrantes, e estes não arriscariam a vida nas águas do Mediterrâneo agarrados à frágil esperança de uma vida melhor.
A União Europeia apoiou a brutal intervenção dos EUA em países árabes. Após sustentar Saddam Hussein, Kadafi e Bashar al-Assad, as potências ocidentais, de olho no petróleo daqueles países, apelaram ao pretexto de terrorismo para derrubar suas antigas marionetes e deixar no lugar o caos.
Os europeus ocidentais se esquecem do próprio passado. Entre 1890 e 1910, mais de 17 milhões de europeus migraram para os EUA – 570 mil por ano. E milhares vieram para a América do Sul. Isso quando a população mundial era quase um quarto da de hoje. O fluxo migratório do Atlântico foi muito mais intenso que o atual.
Por que a Europa Ocidental não fechou suas fronteiras após a queda do Muro de Berlim, quando se intensificou o movimento migratório do leste rumo ao oeste? Ora, os povos do leste têm traços eslavos, pele branca como a neve, olhos claros. Nada melhor do que ter como empregados – em hotéis, restaurantes, lojas e residências – gente de “boa aparência”.
O preconceito mata – suas vítimas e os valores humanos que teoricamente defendemos. E a discriminação revela a nossa verdadeira face.

​*Frei Betto é escritor, assessor de movimentos sociais e autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

Que horas ela volta? E o futuro, quando chega?, por Waner Iglecias

segunda-feira, 14 de setembro de 2015


     Fui assistir neste final de semana ao filme “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert, indicado pelo Brasil para concorrer ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 2016. Não sei se por ignorância cinéfila ou falta de sensibilidade, mas a obra, tão comentada nos últimos dias, não me surpreendeu. Relata o cotidiano óbvio das relações entre uma família de classe média alta e seus empregados domésticos. Tem o mérito de focar a narrativa na empregada Val (personagem de Regina Casé), dando-lhe o protagonismo de, a partir de seu olhar, desnudar aquilo que todo mundo sabe muito bem: o quão naturalizada é a relação de opressão entre patrões e empregados domésticos e o quão naturalizada é a invisibilidade destes trabalhadores na nossa sociedade. Os patrões (um casal aparentemente mal-resolvido, que apenas se tolera, e seu filho pós-adolescente) passam o filme todo sem sequer levantar a bunda da cadeira para retirar o prato da mesa após as refeições. Tudo cabe a Val, que o faz com comiseração, profundo senso de responsabilidade e quase agradecimento, tamanho o grau de internalização que tem acerca de seu papel subalterno naquela relação. A ela não cabe ter dores, aspirações ou aflições. Ou se as têm, jamais cabe a ela externa-las. A ela cabe servir. E só.
     O problema todo começa quando Jéssica (personagem de Camila Márdila), sua filha, resolve vir do interior de Pernambuco para São Paulo para prestar o vestibular. E logo o da Fuvest. À primeira reação de espanto dos donos da casa (com direito a pai e filho aproximarem-se dela quase que como dois machos a querer observar de perto uma fêmea de outra espécie) sucede-se o choque de visões de mundo entre mãe e filha, entre Val e Jéssica. Val simboliza a moça nordestina que se picou pro Sul Maravilha nos anos 1970 e 1980 atrás de um emprego qualquer para escapar da fome, da seca e da cerca do latifúndio. Jéssica não. Já retrata as novas gerações de nordestinos, nascidos a partir da década de 1990 e que tiveram acesso a melhores condições de vida nos últimos dez, doze anos. Almeja ser arquiteta e simplesmente não compreende a lógica que leva a mãe a subordinar-se tanto a patrões que lhe pagam um salário risível que jamais lhe permitiu ter a sua própria casa após décadas de trabalho duro.
     Sobre o núcleo de personagens que simboliza os patrões, nada de novo: um artista plástico mediano e acomodado, herdeiro da fortuna de um avô; uma executiva de nariz empinado, ciosa de sua imagem pública junto aos pares; e um pós-adolescente comum, que parece ter mais sentimento pela empregada do que pela própria mãe, que fracassa no vestibular e cuja ação mais arrojada na vida até então é o ato transgressor e revolucionário de...estar começando a fumar maconha. A grande novidade mesmo de “Que horas ela volta?” é Jéssica. Afinal, o perfil um tanto esquemático, mas verdadeiro, de uma família de classe média alta em suas crises existenciais burguesas e o perfil de uma empregada doméstica resignada com o destino é o que sempre tivemos neste país, há décadas. Isso é o passado. Um passado que teima em continuar existindo. Jéssica não. Ela é o presente. Ela é a realidade de milhões de brasileiras e brasileiros que hoje querem uma vida melhor, mais digna e mais cidadã. O que “Que horas ela volta?” não consegue anunciar, como de resto não estamos conseguindo nenhum de nós, é o futuro. O país que virá por ai nos próximos dez, quinze, vinte anos, após todas as mudanças sociais promovidas na última década e toda a forte reação a elas que se observa neste momento.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

 
 
 
 
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