sábado, 15 de janeiro de 2022

Thiago de Mello - Para os que virão

janeiro 15, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

 Thiago de Mello morre aos 95 anos | Cotidiano | A Crítica | Amazônia -  Amazonas - Manaus

Para os que virão
Thiago de Mello (1926/2022)

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
— muito mais sofridamente —
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Pra assistir e cantar

janeiro 15, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários
Sentado à beira do caminho
Roberto Carlos e Erasmo Carlos 
 
Eu não posso mais ficar aqui
A esperar
Que um dia de repente você volte
para mim
 
Vejo caminhões e carros apressados
A passar por mim
Estou sentado à beira de um caminho
Que não tem mais fim
 
Meu olhar se perde na poeira
Dessa estrada triste
Onde a tristeza e a saudade de você
Ainda existe
 
Esse sol que queima no meu rosto 
Um resto de esperança
De ao menos ver de perto seu olhar
Que eu trago na lembrança
 
Preciso acabar
Logo com isso
Preciso lembrar
Que eu existo
Que eu existo
Que eu existo
 
Vem a chuva molha o meu rosto
E então eu choro tanto
Minhas lágrimas
E os pingos dessa chuva
Se confundem com o meu pranto
 
Olho pra mim mesmo me procuro
E não encontro nada
Sou um pobre resto de esperança
Na beira de uma estrada
 
Preciso acabar
Logo com isso
Preciso lembrar
Que eu existo
Que eu existo
Que eu existo
 
Carros, caminhões, poeira, estrada
Tudo, tudo
Se confunde em minha mente
Minha sombra me acompanha e vê que eu
Estou morrendo lentamente
 
Só você não vê que eu não posso mais
Ficar aqui sozinho
Esperando a vida inteira
Por você
Sentado à beira do caminho
 
Preciso acabar
Logo com isso
Preciso lembrar
Que eu existo
Que eu existo
Que eu existo

Ademar Rafael - Crônicas de Bem Viver

janeiro 15, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários
Ademar Rafael

 

CORRIDA DE OBSTÁCULOS

   Com leitura do livro “Zilda Arns – Uma biografia”, do jornalista e professor Ernesto Rodrigues é possível identificar com clareza como as ações em favor dos menos favorecidos em nosso país se transformam em provas de “corrida de obstáculos”. No mundo do capital os interesses individuais estarão sempre à frente dos interesses coletivos.

   A médica e sanitarista Zilda Arns idealizadora e defensora incansável da Pastoral de Criança, do “soro caseiro”, da “reidratação oral”, do aleitamento materno e de tantas outras ações que salvaram vidas enfrentou muitos obstáculos de setores que deveriam apoiar suas iniciativas. Superou cada um deles com tenacidade. Morreu defendendo tais princípios em 12.01.2010 vítima de desmoronamento provocado pelo terremoto que abalou o Haiti. Desde os primórdios do seu projeto, na pequena cidade de Florestópolis - PR, surgiram barreiras, vou citar as três
principais.

   A primeira da igreja católica que entendia não haver necessidade de criar a Pastoral da Criança, correto seria colocar dentro da Pastoral do Menor. Com muita conversa esta barreira foi removida. A segunda barreiras veio
da indústria farmacêutica, das farmácias e de alguns pediatras. Viam o projeto como ameaça para venda maciça de medicamentos para diarreia e desnutrição as duas causas do grande número da mortalidade infantil no mundo. Esta barreira contou com a participação da imprensa, movida por interesses financeiros. A terceira foi a desconfiança da UNICEF – Fundo das Nações Unidas para Infância. Esta entidade tentou de varais formas impedir o acesso aos recursos da Campanha Criança Esperança, realizada em conjunto com a Rede Globo, pela Pastoral da Criança. Os resultados das ações fizeram com que a distribuição de um percentual fixo da volume arrecadado fosse direcionado para Pastoral por decisão da rede de TV.

   Somente uma pessoa movida pela fé, carregando consigo a pragmatismo alemão daria conta de conduzir com êxito um projeto dessa envergadura. A obra de Zilda Arns não é referência no mundo por acaso.

Publicado originalmente no Blog do Finfa

Documentário traz a beleza de Nara Leão para um Brasil que anda muito feio

janeiro 15, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

 Série documental traz Nara Leão em momentos inéditos - Cultura - Estado de  Minas

Por Silvio Osias / Jornal da Paraíba

   O Canto Livre de Nara (sem o sobrenome Leão) é o título de um disco que a cantora um dia chamada de Musa da Bossa Nova lançou em 1965. O Canto Livre de Nara Leão (com o sobrenome) é o nome do documentário dirigido por Renato Terra, agora disponível no Globoplay.

   São cinco episódios. Juntos, eles somam um pouco mais de três horas. Terra, o diretor, é o mesmo que realizou (com Ricardo Calil) Uma Noite em 67, sobre o festival de MPB que lançou o tropicalismo, e Narciso em Férias (também com Calil), sobre a prisão de Caetano Veloso pela ditadura militar.

  O Canto Livre de Nara Leão tem episódios temáticos (Bossa Nova, Opinião, A Banda, etc.) que contam, com extraordinária sensibilidade e rico material de acervo, a história dessa mulher de aparência frágil e atitudes fortes que um dia passou pela música popular brasileira.

   Com sua voz delicada, Nara foi da bossa nova aos standards da música americana revisitados no fim da vida. Fez do jeito que lhe pareceu conveniente, gravou o que quis. Cantou muito Chico Buarque, lançou gente nova, flertou com o tropicalismo e com a jovem guarda, foi engajadíssima. Exerceu a sua liberdade.

   Se estivesse viva, Nara Leão faria 80 anos no dia 19 de janeiro. Ela morreu aos 47 anos em junho de 1989. Tinha um tumor no cérebro. O Canto Livre de Nara Leão celebra a música e a vida dessa grande mulher. De alguma maneira, nos devolve a sua beleza num Brasil que anda tão feio ultimamente.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

janeiro 12, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

 


Mostra Orobó de Cinema está com inscrições abertas para submissão de filmes

janeiro 12, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários


   Estão abertas as inscrições para submeter trabalhos para a 3ª Orocine – Mostra Orobó de Cinema que será realizada de 04 a 10 de abril de 2022. Os interessados devem acessar o link https://www.filmfreeway.com/OROCINE até às 23h59min do dia 05 de fevereiro de 2022. Estão habilitados para participar do evento os filmes em ficção, animação, documentário ou experimental de até 25 minutos, feitos por realizadores (as) e/ou produtores (as) nacionais ou por estrangeiros que morem no Brasil há mais de dois anos. As obras devem ter sido concluídas a partir de janeiro de 2020.

  Na Orocine deste ano será concedido o Troféu Frivolité para as categorias de Melhor Filme (para cada mostra), Direção, Produção, Roteiro, Fotografia, Direção de Arte, Ator Principal, Atriz Principal e Cartaz. Um júri especial formado por três profissionais da área vai fazer a avaliação. Além disso, haverá a escolha do Melhor Filme para o Júri Popular que será avaliado de acordo com votação na Mostra Força Interior.

  Segundo o organizador do evento, Carlos Kamara, a 3ª Mostra Orocine quer valorizar a cultura local da cidade de Orobó, enfatizando a poesia e a cantoria popular. “A Orocine tem uma preocupação em dar ênfase aos valores locais que existem e isso vai refletir em ações paralelas, nas atividades pedagógicas, tanto presenciais como on line”, explicou Kamara.

   Mostras – A 3ª Orocine terá seis mostras competitivas que vão abordar temas específicos. A Mostra FORÇA INTERIOR terá filmes pernambucanos com temáticas livres, preferencialmente que expressem as culturas locais das regiões da Zona da Mata, Agreste e Sertão. Os diretores devem ser destas regiões e, ao serem selecionados, devem comprovar com documentos oficiais a sua naturalidade.

  A Mostra LUAR DO SERTÃO vai reunir filmes com temáticas livres que foram produzidos nos estados da Região Nordeste do Brasil, com exceção de Pernambuco. NA CONTRAMÃO vai reunir filmes com temáticas urbanas dos grandes centros e das capitais brasileiras, mas que tragam mensagens e diálogos com o interior pernambucano ou com a zona rural. SERRA VERDE é uma mostra que vai ter filmes brasileiros abordando questões ambientais e de sustentabilidade. O público infanto-juvenil será contemplado com a Mostra BRINCADEIRAS DE RODA. E ainda tem a ACESSIBILIDADE que vai reunir obras que contenham recursos para serem exibidos para pessoas surdas e ensurdecidas, como também para pessoas com deficiência visual.

Alexandre Morais - De frente com Ana Maria

janeiro 12, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

 

Nesta quinta-feira, dia 13/01/22, às 19h30, quem vai tá De frente com Ana Maria é o poeta e editor desta página, Alexandre Morais.

Pra acompanhar é só acessar o canal De frente com Ana Maria, clicando aqui 

Pernambuco - Editais do Funcultura 2022 somam R$ 32 milhões

janeiro 12, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários


 O Governo de Pernambuco, por meio da Secult-PE/Fundarpe, lança os quatro editais 2022 do Funcultura (Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura), que neste ano completa 20 anos de existência. Ao todo, serão R$ 32 milhões destinados ao incentivo e fomento de projetos artísticos e culturais por meio de seleção pública. As linguagens contempladas são as seguintes: audiovisual, música, artes integradas, artes plásticas, artes gráficas e congêneres, artesanato, circo, cultura popular e tradicional, dança, design e moda, fotografia, gastronomia, literatura, ópera, patrimônio, teatro e formação, capacitação e pesquisa cultural.

EDITAIS

   O edital Microprojeto Cultural 2022 disponibiliza R$ 640 mil, abrange todas as linguagens e é voltado para jovens de 18 a 29 anos. As inscrições podem ser feitas de 4 de abril a 6 de maio. O edital pode ser acessado aqui.

   O 16º Funcultura Audiovisual reserva R$ 9,2 milhões para as produções. As inscrições para concorrer ao fomento devem ser realizadas de 11 de abril a 13 de maio. O edital está disponível aqui.

   O 6º Funcultura Música terá R$ 4,1 milhões, com inscrições de 2 de maio a 3 de junho. Para acessar o edital, clique aqui.

  Com R$ 15,6 milhões reservados ao fomento, o Funcultura Geral 2022 é o maior dos quatro editais. As inscrições são de 16 de maio a 17 de junho e o edital está publicado aqui.

  Juntos, os quatro editais somam 29,7 milhões. O restante é o valor de custeio do Fundo. Os editais de 2022 contemplam o formato presencial, virtual e híbrido.

INSCRIÇÕES

   As inscrições serão realizadas, exclusivamente, pela internet, através da plataforma Prosas (prosas.com.br). Quem precisa habilitar ou renovar o Cadastro de Produtor Cultural (CPC), tem até o dia 18 de março para fazê-lo. Para concorrer ao Funcultura 2022, os produtores culturais precisam ter um perfil de “empreendedor” na plataforma Prosas. Confira aqui um tutorial de como criar seu perfil de empreendedor na plataforma.

   “Esse conjunto de editais possibilita um fomento importante para a cadeia produtiva da cultura e toda sua dinâmica, desde a geração de emprego e renda até a qualificação profissional. Ainda atravessamos momentos de dificuldades e restrições, o que torna ainda mais desafiante a execução dessa política e nos mostra o impacto positivo que o Funcultura consolidou na cultura e arte de Pernambuco ao longo dos anos”, avalia Marcelo Canuto, presidente da Fundarpe.

REESTRUTURAÇÃO

  Em 2021, os editais do Funcultura passaram por reformulações estruturais visando a uma maior democratização do acesso aos seus recursos, com destaque para as políticas de regionalização e as de inclusão racial e de gênero. Os resultados das aprovações do ano passado demonstraram a eficácia das políticas afirmativas e induções de aprovação adotadas. Em média, metade dos projetos aprovados no ano passado foram da Zona da Mata, do Agreste ou do Sertão. Isso representou uma desconcentração inédita dos projetos aprovados na Região Metropolitana do Recife.

  Observou-se também que cerca de 50% dos projetos aprovados foram propostos por pessoas autodeclaradas negras. Com relação ao gênero, a maioria dos projetos aprovados são representados por mulheres. Todas as políticas de regionalização e os indutores para diversificação do perfil racial de gênero foram mantidos nos editais para 2022.

DUAS DÉCADAS

  Principal e mais democrática e transparente política de fomento à cultura do Estado, o Funcultura chega a 20 anos de existência reunindo mais de nove mil produtores culturais cadastrados que, na última década, concorreram a cerca de R$ 330 milhões em fomento de projetos culturais.

  O Funcultura foi instituído por meio da Lei 12.310, de 19 de dezembro de 2002, tendo o primeiro edital lançado em 2003. O fundo público recebe recursos oriundos da arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e os destina ao financiamento direto de projetos artísticos e culturais por meio de seleção pública.

  Os projetos são analisados com base em diretrizes estabelecidas coletivamente, por meio do diálogo contínuo com a sociedade, especialmente com o Conselho Estadual de Política Cultural, Comissões Setoriais de Cultura, Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural e do Conselho Consultivo do Audiovisual.

  As propostas aprovadas recebem os recursos diretamente do Governo de Pernambuco. Por meio de um modelo de gestão compartilhada com a classe cultural, o Funcultura conta com uma Comissão Deliberativa, formada por representantes do poder público e da sociedade civil.

Conteúdo copiado de http://www.cultura.pe.gov.br/canal/fundarpe/governo-lanca-o-pacote-de-editais-para-o-funcultura-2022-de-r-32-milhoes/

segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Inscrições abertas para o Curta Taquary

janeiro 10, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

 

A 15ª edição do Curta Taquary irá acontecer em formato híbrido (online e presencial) entre os dias 16 (Dia nacional da conscientização das mudanças climáticas) e 22 de março (Dia da Água).
Contaremos em nossa programação com produções voltadas para as temáticas sociopolíticas e educativas ambientais, de gênero, étnico-raciais e inclusivas para toda e qualquer pessoa, que possam contribuir para o desenvolvimento do senso crítico do público e apontem soluções para a construção de uma sociedade mais justa e em equilíbrio com todos os seres vivos.
O projeto da próxima edição foi contemplada pelo Edital de Apoio ao Fomento do Audiovisual do Estado de Pernambuco – Funcultura/Fundarpe, e tem como objetivo utilizar o audiovisual como ferramenta no processo de aprendizagem de estudantes de escolas públicas e ser uma janela de difusão e promoção do panorama atual de curtas metragens produzidos em todo Brasil e América Latina.
Para cada filme inscrito, uma muda de espécie nativa será plantada em Taquaritinga do Norte .
Junte-se a nós e vamos simbora fazer um mundo melhor!
Inscrições até dia 30/01 no site: https://curtataquary.com.br/

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Ronaldo Correia de Brito - Procura-se um personagem

janeiro 07, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

    

Ronaldo Correia de Brito
Quem entrava na casa de minha avó materna, avista na parede da sala de visitas uma imagem do Coração de Jesus, litogravura suíça, herança de família. Logo abaixo dessa imagem em tons verdes e pretos, lembrando um ícone russo, o retrato do meu avô Pedro Zacarias de Brito, fotografado dentro do caixão em que o enterraram. Esses dois personagens reinavam absolutos na casa grande e antiga do sítio Boqueirão, no Crato. Era impossível não avistá-los uma centena de vezes por dia e mais impossível não se sentir olhado, vigiado e protegido pelos dois senhores.

   Dália Nunes de Brito professava uma religião popular, que parecia inventada por ela mesma. Nesse cristianismo sertanejo não aconteceram as sangrentas matanças dos cruzados, nem as fogueiras dos tribunais da Inquisição e nunca se mencionou a usura de Roma, acumulando tesouros ao longo da história. Minha avó tinha desapego aos bens materiais e fazia questão de não possuir quase nada, além das terras que meu avô deixara. Os únicos objetos intocáveis na casa de portas escancaradas eram as imagens dos santos e a mesinha altar com toalha de renda de bilros, dois castiçais de vidro e uma jarrinha de porcelana.



   Vovó rezava um rosário às três da manhã, outro ao meio-dia e um terceiro ao anoitecer. Valia-se do Coração de Jesus e do marido morto, em todas as agonias. Uma vez por ano festejava o Sagrado Coração, na data em que ele fora entronizado na parede de onde nunca deveria sair. A renovação, como se chamava a festa, acontecia no mês de julho, época de fartura.

   Os reisados cantavam:

“Quando entro nessa nobre sala

É pelo claro dessa luz

Louvor viemos dar

Ao Coração de Jesus”.

   As mulheres entoavam benditos, os homens soltavam fogos de caibro, servia-se aluá de abacaxi, bolo de puba, pão de ló de goma, sequilhos e biscoitos. Tudo modesto e exíguo. Porém, não existia felicidade terrena maior do que aquela.

   No Natal, o Sagrado Coração ficava um pouco esquecido e desprestigiado. Minha avó só cuidava do Jesus Cristinho, um meninozinho de madeira, rosado e risonho, vestido numa camisa de seda, esculpido lá longe em Portugal, e recebido de presente da nossa tia-avó Nizinha. Diferia de todos os Meninos-Deus que conhecíamos, por ser igual a nós. Debaixo do vestidinho rendado, lá entre as coxas, tinha como todos os meninos um pinto e dois ovinhos. Minha tia Alzenir achava uma profanação e tentava por todos os meios esconder a sexualidade do Deus Menino. Pensou em mandar castrá-lo, livrando-se da nossa curiosidade. Todas as vezes que passávamos diante da lapinha, levantávamos a saia do Menino e olhávamos o seu sexo, comparando com o nosso. Era difícil imaginar que aquele camarada deitado na manjedoura de palha, em tudo semelhante a nós, crescera e se tornara o Senhor pregado logo acima na parede, vigiando-nos com os seus olhos bondosos, mas severos.

   Minha avó confeccionava os enfeites da lapinha com lã de ciumeira e de barriguda. O tempo livre de que ela dispunha, entre os trabalhos e as rezas, ocupava no artesanato minucioso, dando vida a carneiros, bois, burros e camelos. As figuras de José, Maria e dos Reis Magos, de louça modesta, eram as mesmas dos outros anos. Mais bonita que a lapinha da nossa avó, só mesmo a das irmãs do alfaiate Zé de Rita, famosas no Crato.

  O ano tornava-se curto para elas construírem a cidade cenário que ocupava quase uma sala.  Havia de tudo naquele universo miraculoso: uma Jerusalém reproduzida, montanhas, lagos com cisnes e peixes, exércitos de soldados romanos, vilas, currais, bichos domésticos e selvagens, florestas, campos, pastores e pastoras em profusão, anjos e santos, tudo distribuído nos três níveis: o superior divino; o intermediário e o terreal. Era impossível imaginar-se alguma coisa que não estivesse representada ali. Uma vez, juro, cheguei a avistar uma Marilyn Monroe de papel, seminua, pendurada no galho de uma árvore. 

  O cinema trouxe ao Crato o glamour hollywoodiano e a fantasia dos natais com neve e pinheiros. As lapinhas perderam prestígio, como o catolicismo. O cineasta italiano Federico Fellini anunciou o fim da mitologia cristã, mas teimei em saudar o Jesus pagão da minha infância, em teatro e música, numa festa batizada com o nome de Baile do Menino Deus. Um dia, convidaram-me para conversar com uma turma de colégio de classe média, no Recife. A escola decidira fazer um espetáculo de Natal e os meninos, em torno de vinte, escreveriam o texto.

  Queriam minha ajuda, um empurrãozinho. Aceitei e fui ao encontro. Eram crianças inteligentes, com certa automação dos jogos de computador e vídeo games. Propus um começo. Anotaríamos a lista dos personagens do Natal, os mais importantes. Gritaram todos ao mesmo tempo. Pedi ordem. Surgiram os nomes, as figuras famosas das decorações natalinas dos shoppings: Papai Noel, o trenó, as renas, a árvore de natal, a neve. Estranhei as respostas. Insisti. Lembraram os gnomos, os duendes, a oficina de brinquedos do Gepeto e os anõezinhos de Branca de Neve. Assustei-me. Não acreditava no que ouvia. Não é possível! Quem são os verdadeiros personagens da festa de Natal, aqueles, sem os quais nada teria acontecido? Todos concentrados. Espera aí… Espera aí… E nada. Não vinha um nome. Apelei. Lembrassem pelo menos do personagem mais importante, o que deu origem à noite de Natal. Por fim, um geniozinho gritou: Já sei! Já sei!

  Que alívio!

  E com ar vitorioso anunciou:

  – O peru da Sadia.

janeiro 07, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

 


Sivuquiando - Com Beto Miranda e grande elenco

janeiro 07, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários

Por Erico Sátiro, Pesquisador Musical 
 
  Em 1951, com apenas 20 anos de idade, o sanfoneiro Severino Dias de Oliveira, o popular Sivuca, gravou seus primeiros discos de 78 rotações. Entre essas gravações iniciais, estava sua endiabrada versão para o “Frevo dos Vassourinhas” (Mathias da Rocha), um dos temas mais conhecidos do ritmo pernambucano. 

   Em seus mais 50 anos de carreira, o saudoso Sivuca passeou com desenvoltura por diversos estilos musicais, do forró ao jazz, do choro à bossa nova, mas sem jamais relegar o frevo, influência direta de Recife em sua formação profissional. Prova disso são os 4 volumes da série Forró e Frevo, lançados pelo músico paraibano na década de 80. 

Beto Miranda, autor de de Sivuquiando

   70 anos após a gravação de seu primeiro frevo, o Maestro da Sanfona não poderia receber homenagem mais adequada por parte do poeta, cantor e compositor paraibano Beto Miranda, que criou “Sivuquiando”, música instrumental à altura do homenageado, mestre em executar frevos sanfonados. Para interpretar “Sivuquiando”, Beto escalou uma verdadeira seleção de músicos que tiveram ligação pessoal e profissional com Sivuca: o Maestro Chiquito, lenda viva da música paraibana, conduzindo a Orquestra Metalúrgica Filipeia; no solo de sax, o também Maestro Spok, um dos maiores nomes do ritmo na atualidade; e na sanfona, o não menos talentoso Beto Hortis, o “Filho de Camaragibe”.

   A música chega às plataformas digitais nesta primeira semana de janeiro e também está inserida em um projeto de Beto Miranda para lançamento de um CD físico, juntamente com outras canções autorais. 2022 está apenas iniciando, e que ele transcorra com a mesma alegria e energia de “Sivuquiando”!

janeiro 07, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários


 

São José do Egito celebra o cantador Louro do Pajeú

janeiro 07, 2022 Por Alexandre Morais Sem comentários


   Para comemorar o nascimento do poeta Lourival Batista – 6 de janeiro – está sendo realizado no Sítio Santa Helena, em São José do Egito, Sertão do Estado, o festival ‘De Repente Louro’. O evento foi aberto nesta quinta-feira e vai até o domingo (9).

   Com as conhecidas restrições impostas pela Covid-19, o evento que sempre ocorre em praça pública e atrai uma multidão, teve de ser reestruturado. Por isso, aconteceu numa área privada, ao ar livre e com rígido controle de acesso. 

  Só com a apresentação do comprovante de vacina, as pessoas são autorizadas a entrar na festa, que neste ano tem formato semelhante ao Festival Zeto: udistoque pajeuzeira, anualmente realizado em meados de julho.

  Outra característica do evento deste ano é a participação solidária. Com um mínimo de patrocínio, que garantiu apenas a infraestrutura básica, a exemplo de som e iluminação, o De Repente Louro, só foi possível porque os artistas se prontificaram a se apresentarem sem recebimento de cachê. Atração à parte é a presença da conhecida Rural, de Roger de Renor e Niltinho.

  Organizadora do festival, a cantora Bia Marinho, filha do homenageado, revela o reconhecimento e o carinho do povo pelo poeta. 

  “A festa só está acontecendo por conta do apoio dos amigos, que louvam a contribuição de Louro para a poesia e o Pajeú”. E acrescenta: “Aqui não vale a história de que santo de casa não faz milagre. Louro é idolatrado pelas pessoas”.

 Também organizador da homenagem, o poeta Antônio Marinho – do grupo Em Canto e Poesia – destaca um dos objetivos do evento, que é ao mesmo tempo revisitar o passado e abrir perspectivas para continuidade da produção poética. 

  “Não tem sentido ficar só louvando o passado, como não tem sentido achar que está se fazendo uma coisa sem passado. O festival cumpre o papel de ponte entre a tradição e a contemporaneidade”, arremata Marinho.

   Na abertura, nesta quinta-feira (6), aconteceu o lançamento do livro O Aventureiro e o Boêmio – sobre Lourival e Pinto do Monteiro –, de autoria de Marcos Nunes Costa e Raimundo Patriota, que é filho de Louro. 

  Ocorreu ainda mesa de glosas, cantoria de duas duplas de violeiros, dos grupos As Severinas e Em Canto e Poesia, do sanfoneiro Douglas Silva, do cantor Val Patriota e da cantora Bia Marinho.

   Nessa sexta-feira (08), o poeta Eugenio Jerônimo faz recital e o cantor Zé Linaldo lança o CD Um Pé de Tempo. Durante os outros dias diversos artistas, que vão aderindo ao festival, passarão pelo palco.

   Louro do Pajeú – Lourival Batista Patriota (Louro do Pajeú) nasceu em São José do Egito em 1915 e faleceu em 1992. 

 Considerado um dos maiores repentistas da história protagonizou célebres pelejas com outro ícone da cantoria de viola, o paraibano Pinto do Monteiro.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Ademar Rafael - Crônicas de Bem Viver

dezembro 31, 2021 Por Alexandre Morais Sem comentários

Ademar Rafael
HISTÓRIA CLARIFICADA



  O incansável pesquisador e escritor Fernando Pires, funcionário aposentado do Banco do Brasil e internauta desde os primórdios da rede mundial dos computadores, entrega para esta e para as gerações futuras uma obra digna de todos os adjetivos de qualidade. O livro “Afogados da Ingazeira – Páginas da sua história” integrará o rol das publicações obrigatórias em todas bibliotecas que queiram informar com exatidão os fatos históricos da região em horizonte temporal distante. É uma obra candidata a seguir o caminho do sucesso obtido com “Afogados da Ingazeira – Memórias.”

   Aqui destaco as observações de uma amiga e três amigos e colegas do BB, sobre o livro. Elvira Siqueira nos diz: “O carinho que Fernando dedica à sua terra natal é indizível. Ele investiga, analisa, registra, com riqueza de detalhes, tudo que está a seu alcance, desde ao primeiros sinais, as primeiras casas, os primeiros eventos, como tudo começou e como foi evoluindo até chegar aos dias atuais.” Mauro Bastos atesta: “Trata-se de um livro indispensável não só aos filhos dessa terrado Pajeú, mas, igualmente, a todos aqueles que quiserem conhecer a história de uma região abençoada do estado de Pernambuco, região fértil em bravura, determinação e acolhimento.” Milton Oliveira garante: “Assim como aconteceu com o livro anterior de Fernando Pires, este se esgotará em pouco tempo. Li-o e fiquei impressionado com tantos detalhes preciosos e curiosos, que, graças a Deus, não ficarão esquecidos sob a poeira do tempo.” Célio Pereira assegura: “Desta feita Fernando Pires se vestiu com um escafandro, e mergulhou o mais profundo para buscar o tesouro que o mar escondia há dezenas de anos, encontrado um baú de fatos históricos por demais significativos para os filhos da terrinha.” Concordo com todos.

   Deixar de ler este livro é abdicar do direito de conhecer nossa história, inteligentemente ordenada, descrita em formato claro e fidedigno. O autor, com a ética que o caracteriza, conta os fatos como eles aconteceram, as “Notas do Autor” sevem para clarear o tema, jamais alterar seu conteúdo.

Flávio Leandro - Pra mim, 2022 será o ano da ressignificação!

dezembro 31, 2021 Por Alexandre Morais Sem comentários

 

Tudo que aconteceu nos dois anos anteriores, tudo, é um grito desesperado do planeta... e é consequência direta de meu modo de consumir. Então, neste futuro que irei abraçar quero embalar meus hábitos lá no passado. É lá, no passado dos meus avós, que mora a minha paz, a minha saúde e a saúde do meu planeta. Claro, no passado dos meus avós não mora a ciência dos meus netos, sendo assim, vou usar a ciência dos meus netos no passado dos meus avós, quando ela não impactar negativamente na tão fragilizada existência do nosso planeta.
Quero prestar mais e mais atenção no que consumo: não aceitarei comprar leite com peróxido, goma com formol, manteiga da terra, nata e azeite com óleo de soja, café com misturas mil, queijo batizado, milho, feijão, hortifrutícolas e afins, cujos tratos são a base de veneno e outras firulas.
Chega de enganação!
Fala-se muito em honestidade e a primeira pessoa com quem sou desonesto é comigo mesmo.
Como consumidor eu posso mais do que como eleitor, pois o voto é sazonal e meu consumo é ininterrupto! Mas posso usar o meu voto pra forçar congressistas a criarem mecanismos que melhorem a qualidade do alimento dos que, diferente de mim, não podem escolher, consequentemente, melhorar a qualidade da produção do alimento ao meu dispor, que resultará na melhora do planeta.
Quero descascar mais, desembalar menos...dar luxo, ao meu lixo!
Quero sim... vou sim, usar a Internet do futuro dos meus netos, mas de uma forma responsável, que me faça sobrar tempo pra eu poder usar bem o passado dos meus avós, e assim me aproximar mais de mim, e não da máquina.
Quero me levar para um passeio, sem pisar o pé no freio, sem pensar no fim...vasculhar minhas gavetas, botar tinta na caneta do meu coração, escrever um "eu me amo", cada vez que a voz do mundo me disser que não. Ler meus livros, plantar flores, pra te dar quando tu fores, flor, no meu jardim, acordar essa pessoa, que andou vagando à toa, mas que mora em mim...
Sim,
"Quero meu Forró, morando na literatura... desenhando a arquitetura da cultura popular."
Claro, quero (muito) derrubar a mediocridade que se instalou no país!
Feliz 2022!


Flávio Leandro

Filme produzido no interior da Paraíba vence Festival Internacional de Cinema Infantil

dezembro 31, 2021 Por Alexandre Morais Sem comentários


Do PBAgora

    “A Botija é uma tentativa de fazer um resgate histórico da cultura da oralidade que vem se perdendo ao longo do tempo, dessa forma mantendo viva a tradição de propagar conhecimentos presentes no imaginário popular por meio de narrativas e produções culturais”, falou a diretora.

   A animação foi produzida a partir de contemplação na lei Aldir Blanc e a produção foi apoiada pela Prefeitura Municipal de Boa Vista/PB por meio da Secretaria de Educação, Turismo, Cultura e Desportos. A produtora responsável pelo filme foi a Black Raven.

  Com produção de Flávio Alex Farias, dublagem de Rebeca Soares e Rou Tavares e ilustrações do boavistense William Andrade, ‘A botija’ em seu enredo conta a história de Lavínia, uma menina muito curiosa, que viaja no tempo através das memórias do seu avô. Nesse episódio, Manoel conta a história de um homem que se aventura em busca de uma botija que recebeu em sonho.

  “Aproveito para destacar a importância da participação da animação em um festival desse porte, uma vez que a produção consegue uma propagação mais abrangente. Na verdade, não há palavras que consigam expressar fielmente a sensação que essa vitória nos trouxe, então, gostaria apenas de agradecer imensamente a toda equipe que fizeram um excelente trabalho ao dar corpo, voz e vida ao roteiro”, conclui Menara.

Copiado de https://www.pbagora.com.br/noticia/cultura/filme-produzido-no-interior-da-paraiba-vence-festival-internacional-de-cinema-infantil/

O eterno acordeon de Sivuca

dezembro 31, 2021 Por Alexandre Morais Sem comentários


   Paraibano que transformou o lugar do acordeon brasileiro dentro da cultura regional e nacional, Severino Dias de Oliveira (1930 - 2006), ou Sivuca, como ficou conhecido, contribuiu para a cultura regional ao levar a expressão da sanfona para os espaços das sonoridades populares, e que fez do instrumento sua extensão, como forma de enaltecer suas origens!

   Ao ter seu primeiro contato com a sanfona, aos 9 anos de idade, Sivuca não demorou muito para encontrar ali sua verve artística, pois já era um nome presente em feiras e festas populares, o que o levou a se mudar para Recife aos seus 15 anos, onde trabalhou na Rádio Clube de Pernambuco e recebeu o apelido de Sivuca.

   Assim, as portas para o sanfoneiro seguiram se abrindo, e logo em 1951 veio a lançar uma de suas clássicas faixas, ‘Adeus, Maria Fulô’, canção que compôs junto de, a esse momento seu mestre, Humberto Teixeira, se tornando um marco para o baião no país.

   Ao morar em Nova Iorque por um período que perdurou de 1964 a 1976, Sivuca, que se encontrava em uma crescente visibilidade, encontrou a possibilidade de desconstruir a visão da música clássica frente ao acordeon nos espaços dos conservatórios, pois até então era visto apenas como uma forma de matar a solidão dos fazendeiros, não interagindo com a sonoridade da elite.

   Tal feito levou o arranjador e multi-instrumentista a trabalhar para nomes como Miriam Makeba, assumindo sua direção musical, e Harry Belafonte, que apesar do grande impacto para sua carreira, Sivuca não se via confortável para fazer aquilo que sabia, que era tocar a música de sua terra, o sentimento do nordeste.

  Foi então que o acordeonista conheceu sua companheira Glória Gadelha, elo que o trouxe de volta para solos brasileiros, material e espiritualmente, o presenteando com a composição de uma das jóias do forró brasileiro, ‘Feira de Mangaio’, canção que explodiu na voz de Clara Nunes!

  Sivuca viveu com o coração em festa, levando sua feliz sanfona estrada afora, e hoje, 15 anos de sua passagem, sua imagem permanece entranhada dentro da música brasileira, como quem inseriu o acordeon como instrumento presente na cultura popular, e que foi capaz de sentimentar em forma de som a riqueza de suas raízes!

  Para além da música, Sivuca enalteceu a cultura regional nordestina, e confrontou toda forma de negligência que a sanfona sofria dentro do cenário da música clássica e internacional, colocando o ‘instrumento do mato’ para dentro de conservatórios de música do mundo!

Copiado de https://immub.org/noticias/o-eterno-acordeon-de-sivuca