Emídio de Miranda

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Recebo através de Cláudio Gomes, que por sua vez recebeu de Djacy Véras, o soneto abaixo. Grande e mais belo se conhecida sua origem. Eis um resumo: ao escrever, o autor estava nas últimas como se diz, vitimado por males alguns oriundos do alcoolismo. Dirigiu os versos a um amigo que se negou a pagar-lhe bebida. O poeta é Waldemar Emídio de Miranda, nascido no Recife, mas que cumpriu sua missão na terra entre as cidades de Serra Talhada, Arcoverde, Triunfo e Caruaru, tendo falecido em 1937. Vamos aos versos:

Tú, ventrudo burguês analfabeto,
Escultura rotunda da irrisão
Para quem o viver mais limpo e reto
Consiste em ser avaro e ter balcão;

Tú que resumes todo o teu afeto
No dinheiro - o metal da sedução,
Pelo qual negocias abjeto,
Tua esposa, teu lar, teu coração;

Escutas ó ignorantaço, o que te digo:
Esse ouro protetor, que é teu amigo,
Que te deu o conforto de um pachá,

Pode comprar qualquer burguês cretino,
Mas a lyra de um vate peregrino
Não compra, não comprou, não comprará.

2 comentários:

Boa materia.

Anônimo disse...

Por Gilson Duarte R. Filho

Brilhante, Emídio de Miranda. Pena que é tão pouco conhecido e citado.
Outro dele, dessa vez ao ver um coveiro enterrar uma linda mulher:

A UM COVEIRO

O teu trabalho, intérmino, coveiro,
Devia ter uma pausa. Isto é rude.
Abrir covas, irmão, o dia inteiro,
É envenenar os sonhos e a saúde.

Mas que sonhos terás pobre agoureiro?
Glória? Esplendor? Amor e Juventude?
Nada disto. O teu sonho feiticeiro
Deste-o aos vermes, tu mesmo, no ataúde.

Vai coveiro! ao sol mostra a tua enxada!
Atira pás de terra, alma empedrada
No esquife azul dessa donzela etérea!

Gargalha! Canta! acende o teu cigarro!...
Mas vê também que és lama, e que és matéria...
E outro coveiro há de atirar-te barro!...

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