Remirando memórias e cantos

sábado, 6 de agosto de 2011

Marcondes de Araujo Secundino // Antropólogo
marcondes.secundino@fundaj.gov.br


Vindo de Águas Belas, cidade situada em área de transição entre o Agreste e o Sertão de Pernambucano, tenho em comum com o poeta e músico Maciel Melo o fato de gostar dos vates e violas dos bons, além da condição de sertanejo em situação de diáspora. Como diz o poeta: "Eu saí sem saber como voltar/ Eu segui os atalhos do destino/ Apanhei pra deixar de ser menino...". Assim como ele, saí errante de casa com a esperança de conquistar um espaço ao sol. Inicialmente no Sertão paraibano, onde fui acolhido pela família paterna e, em seguida, no Recife, com apoio dos meus padrinhos e tia (Airton e Lourdinha).


Ainda no meu caso, aportando aqui no Recife, voltei a conviver com um conterrâneo, Dário Campos, e outro amigo/irmão Pedro Rafael, com quem passei a ouvir e a conversar, em momentos etílicos, sobre o trabalho de Maciel Melo de forma mais atenta. E somente agora tenho a oportunidade de manifestar uma singela homenagem, um simples aplauso, um ato de comemoração a um dos mestres da música popular brasileira que canta de forma fulgurante o Nordeste, também reconhecido pelas suas aventuras poéticas e de compositor.


Oriundo do sertão de Pernambuco - da pacata cidade de Iguaraci, Sertão do Pajeú - Maciel Melo tem a sua vida marcada pela experiência da "viagem da volta", "remirando a estrada", tal como retratada por outro grande poeta nordestino Torquato Neto em sua canção "Todo Dia é dia D". Experiência típica de um retirante que migra para São Paulo, fugindo da escassez, em busca de seu espaço sem jamais esquecer sua cultura e seu lugar de forma paradoxalmente universal e particular.


O poeta em sua narrativa retrata o destino de um peregrino/retirante que retorna ao lugar de origem, mesmo que imaginário. E, no nosso caso, aquele que aporta nos arrecifes para cantar e decantar em verso e prosa, como nos títulos de suas canções, "nas linhas de sua mão" enxergando "cores e tons" "sem ouro e sem mágoa" "as fronteiras da graça". Sem esquecer "mamãe papai me disse" que daqui dá para ver a "casinha velha" e, "roubando a cena", o "bolero de Izabel". Isso "não é brincadeira".


Diante das veias abertas de sentimentos, lembranças e fábricas de sonhos construídos ao longo da vida, além de representar terrenos movediços necessários à caminhada, "...os atalhos, os caminhos, os desertos. O abismo, a curva, a contramão..." representam também a memória prenhe de elementos históricos que não significa um retorno nostálgico ao passado, mas um retorno que condiciona sua história de vida a uma experiência de recriação permanente, tão bem apresentados em suas letras e músicas.


Maciel Melo, parabéns pelos seus vinte e cinco anos de carreira com "... versos livres e impávidos/ sem rótulo e sem padrão/ sem patrão e sem perdão", embora humanisticamente com "erros e pecados", mas "sem pedir deferimento".

"Isso vale um abraço, companheiro"!


Publicado originalmente no Diário de Pernambuco, Edição de sábado, 2 de janeiro de 2010 
 

1 comentários:

Marcondes disse...

E aí, sertanejo do pajeú! como andas?
Fiquei surpreso ao encontrar este humilde artigo em sua página.
Valeu, abraços.
Marcondes

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