O azulão e os tico-ticos

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Catulo da Paixão Cearense 
 
Do começo ao fim do dia, 
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia 
os seus trilos de harmonia 
cada vez mais se enflorava.
  
Se um tico-tico e outros bobos 
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia 
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso 
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava, 
um dia em que ele cantava 
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão, 
olha, diz-me a razão 
por que, quando estás cantando 
e recebes uma vaia
desses garotos joviais, 
tu continuas gorgeando, 
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras, 
o azulão lhe respondeu: 
"meu amigo, eu prezo muito 
esta garganta sublime, 
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava, 
pensando não ser ouvido 
nestes matos, por ninguém, 
um sabiá que me escutava, 
num capoeirão, escondido, 
gritou de lá: "meu colega, 
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: 
 - Quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"

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