Sabida

quinta-feira, 1 de setembro de 2011


 Por Efigênio Moura ( contato@efigeniomoura.com.br)
Extraído do livro CIÇO DE LUZIA, do autor.

 Nesse dia Ciço veio almoçar em casa. Tinha que tirar um feixe de capim lá da vazante e como era perto de casa resolveu fazer a refeição em sua cozinha. Era um dia bem pertinho do sábado, dia em que  Dona Judith e  Zé Vando  iam pra feira de Monteiro.

- Será qui Luzia vai?

Não havia motivo exato pra pensar nela, qualquer coisa o movia.
Enquanto usava a foice pra tirar o capim ouviu um barulho, um chiado vindo de dentro do capinzal.

- Quem pode mais qui Deus?

Silencio. O barulho voltou a ser forte e agora, mais próximo.

‘ Eita gota! Valei-me meu Padin Ciço, é um guará! ’

Dizendo e pulando pra trás, os olhos esbugalhados, a mão quase quebrando o cabo da foice, um medo da molesta...
Ficou paralisado. O barulho chegando perto. Ciço suando, Ciço rezando, Ciço querendo correr e as pernas não deixando...

- Apareça Satanás!

Ciço apelou e ouviu em resposta um latido.

- Oxi?

Outro latido.
Surgiu uma cadela prenha de pelo amarelado, de língua de fora e rabo balançando, ela sentou-se e encarou Ciço e latiu duas vezes. Ciço desarmou-se, fez aliviado o sinal da cruz.

- Oxe mulé, tu ta buxuda e no mêi do tempo uma zóra dessa.

Voltou para casa e percebeu que a cadela o acompanhava. Ele parava, ela parava. Caminhava, ela ia atrás.

- Vorte pra sua vidinha mulé, vá tê  seus fiin nôto canto, vá.

A cadela desobedecia e o seguia.
Ciço então a adotou. Passou a lhe dar comida e guarita, virou companhia inseparável, virou amiga confidente...

“uma cachorra cuma tu só pode tê um nome: Sabida.”

Sabida deitava em baixo da rede de Ciço, mas dormia na porta da casa, qualquer movimento em falso, ela alardeava.  A cadela passou a ser noticia em toda Macaxeira:

“- rapaizi, Ciço achô uma cachorra qui só farta cozinhá pr’ êle, pense numa bicha sabida!
- Ela pega inté lambu.
-Agora tá, lambu quaiqué cachorro péga!
- Avuando ?
- É só arremedá  qui ela acoa na hora! Dá um bote e sarta e cai cum bicho na boca, se lascano todinha no chão, adispois sacode a puêra e sórta o lambu já difunto, nas precata de Ciço. ”

Sabida sabia de um monte de coisas de Ciço, sabia que ele tava alegre quando assoviava ‘ Farelim de Nada* ’ na porteira perto da casa dele. Sabia que tava preocupado quando ele andava devagar, sabia que ele tava zangado quando soltava com a força a porteira, sabia que Ciço tava triste quando ele não fazia barulho nenhum. Sabida, sabia o quanto Ciço era doidinho por Luzia.

- Eita Ciço e essa cachorra ?
- É sabida, Luzia, ta prenha...
- Ela é Sabida é? Pru quê ?
- Mais tá! Ela é sabida pruquê nasceu sabida e ela cunhece os bicho do mato tudin e tudin arrespeita ela...

Luzia acariciou a cabeça de Sabida. Sabida balançou o rabo.
Ciço ficou doidinho para ser a cachorra. 

(* Farelim de Nada, letra e musica de Xico Bizerra.)

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