Viva, uma viola na Prefeitura!

terça-feira, 23 de outubro de 2012



Carta Aberta a Sebastião Dias e ao povo de Tabira

Por Ruy Sarinho, Jornalista


            Brotou poesia das urnas de Tabira. A eleição, pela primeira vez no Brasil, de um repentista cantador de viola e mestre na sua arte, Sebastião Dias, de uma tacada só, derrubou preconceitos e a prepotência dos políticos doutores entre aspas desta Cidade do Sertão do Pajeú pernambucano, que respira cultura viva e vocação poética por todos os seus recantos e pelo meio do mato e até no canto dos passarinhos.
            Foi um grito violado de uma população sempre tratada com arrogância e olhar superior por aqueles que se acham donos da consciência do povo. Aquela gente política que se impõe pelo poder econômico, tratando-se mutuamente por doutores, que nem de longe são de sabedoria, para perpetuar essas elites no comando político.
            Sebastião Dias foi eleito prefeito sem o apoio de caciques locais, mas embalado pelos acordes de sua viola que tentaram ridicularizar, pois queriam destruir a réplica de uma grande viola montada em praça pública, após a derrota do candidato-cantador.
            Não conseguiram quebrar a viola.
           Quebraram foi a cara!
            Pinto do Monteiro, lá do alto das estrelas que iluminam no firmamento a sua verve poética, está festejando em suas rimas geniais a vitória da sabedoria popular que botou na Prefeitura de Tabira um menestrel violeiro.      
           Graças a Deus, não sou doutor; muito menos, gosto dos que se impõem doutores.
            Com certeza, dois cearenses os que mais admiro também estão aplaudindo lá de cima a vitória de Sebastião Dias: Dom Helder Câmara e Miguel Arraes de Alencar, que carregavam dentro de si a alma do povo.
            Uma vitória que está inundando de felicidade a gente simples de Tabira.
            Aqui, da minha Olinda, vibro com a inteligência dos eleitores tabirenses que romperam a mordaça que os calava e se libertaram pelos versos e com os versos do poeta Sebastião Dias.
            Meu amigo Sebastião Dias, minha ligação com a cultura popular vem de sempre, da beira do mar e do vai-e-vem das ondas de Olinda do Largo de Nossa Senhora da Santa Cruz dos Milagres, na entrada da Cidade, onde morei desde o nascimento até a idade adulta. Das histórias contadas pelos mais velhos da lendária Troça Carnavalesca Donzelinhos dos Milagres. Vem do maracatu rudimentar que descia do Guadalupe, trazido na folia por sua rainha, a vigorosa guerreira Celina, antiga lavadeira que prestava seu dedicado serviço na casa dos meus pais, e que se orgulhava e encantava o carnaval com sua calunga negra na mão, numa coreografia pura nascida do próprio povo.
            Da minha amizade com Bajado – Um Artista de Olinda, ao convívio, até hoje, com o italiano mais olindense que conheci, Giusepe Bacaro, também seu amigo, que realizava os inesquecíveis e imbatíveis Torneios de Repentistas de Olinda e as Caravanas da Poesia Popular, País afora, e que participei de uma das caravanas, pelo Nordeste, ao seu lado..
 Como estudante de jornalismo fui o autor de um projeto na formatura de minha turma, concluinte de 1983, que defendia e denunciava a falta de projetos culturais pelos governos para a cultura raiz do nosso povo, bem como a penúria em que viviam nossos artistas geniais. Contrariando o modelo antigo, e viciado, de escolher para patrono da turma um rico empresário da comunicação para bancar a festa, que seria Paes Mendonça, apresentei a ideia que encantou toda a turma, de ter como patrono nosso cantador maior: Pinto do Monteiro. Outros homenageados foram o pintor Bajado, que pintou num grande quadro em folha de compensado, como placa de formatura que está no auditório da Unicap; um santeiro de barro desconhecido de Goiana e o poeta Delarme Monteiro, que escreveu o convite-cordel da formatura, aqui ilustrado pela estrofe abaixo:

                                     “A turma do Padre Mosca
                                      Para manter seu cartaz
                                      Terá como paraninfo
                                      A dona Vera Ferraz,
                                      E patrono o violeiro
                                      Que é Pinto do Monteiro
                                      Um repentista capaz.”

         Sem o tradicional baile de formatura, a grande festa foi o encerramento do VIII Torneio de Repentistas de Olinda, no dia 22 de janeiro de 1984, seguido por um encontro informal entre os novos jornalistas, convidados e os gênios da cantoria e da poesia, como você, Louro do Pajeú, João Furiba, Patativa do Assaré, Ivanildo Vilanova, Oliveira de Panelas, João Paraibano, Guriatã do Norte, Sinésio Pereira, Antônio Lisboa, Edmilson Ferreira, Cachimbinho e tantos outros que fazem e faziam da poesia do improviso a arte do bem viver, todos reunidos no anfiteatro da Casa das Crianças de Olinda, dirigida por Bacaro.
            Daí, minha felicidade por poder cumprimentá-lo como o novo prefeito de Tabira, a partir de primeiro de janeiro de 2013.
            Como não sou poeta, encerro minha homenagem com mais uma estrofe do para sempre Delarme Monteiro, desejando que você seja na Prefeitura de Tabira quase tão genial como é na beleza dos seus versos e na força da sua indomável viola:
          
                                      “Porque de fato um poema
                                        Como faz o menestrél
                                        Cantando ao som da viola
                                        Tem a doçura do mel
                                        Poesia doce e pura
                                        Extraída da cultura
                                        Que chamamos de cordel.”

Um grande abraço, meu Poeta-Prefeito, Sebastião Dias.

 Olinda, 23 de outubro de 2012.

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