Bastim e o imposto da água

sexta-feira, 12 de julho de 2013



A mãe de Bastim batizou ele de Sebastião. Normal. Mas só por ter passado uns dias em São Paulo, só chamava o menino de Sebastiãozinho, chiando nos esses e no zê. Aí, sabe como é, né? Os outros chamavam de Bastiãozim, sem chiado e sem frescura. E por ser sem frescura virou logo Bastim. Pronto, pegou e ficou até hoje.
Mas isso é o de menos. Com isso Bastim nunca fez confusão. Até porque nunca se deu ao trabalho de aprender a ler e escrever. Era um sabido formado na escola da astúcia.
Essa semana lá ia Bastim no caminho da feira junto com Mané Pio e João de Zé Preto. Só deu tempo passar na cruz do finado Luiz Pequeno, que Bastim começou:
- O governo agora vai acabar com todo mundo. Botou uma lei que num vai escapar ninguém.
E Mané Pio dando corda:
- Ôche! Que lei é essa, Bastim?
- Quem tiver água, nem que seja numa cuia, vai ter que pagar imposto.
- Conversa é essa, home? Perguntou João depois de tirar o pacaia da boca e cuspir no aceiro da estrada.
- É desse jeito, vocês se prepare, que a coisa é feia: açude, barreiro, cisterna, poço, pote, caco de passarim, onde ajuntar água o governo vai medir e cobrar pelo pé.
Foi dois minutos de silêncio e Mané Pio assuntou:
- Danou-se! E como é que vai ficar?
Bastim apontou o caminho pra estrada do fim do mundo ficar mais cumprida:
- Enquanto tu pensava em perguntar eu já tava com a escapatória pronta. Quando o governo chegar nós diz: as água num é do senhor? E apois! Se o senhor quiser levar tudo, pode levar. Agora, se num tiver como levar, deixe que nós cuida. Então nós nem cobra pelo serviço nem o senhor cobra esse tal de imposto. Porque imposto aqui só anda quem tem carro, que é pra botar gasolina...
Aí deu uma risada alta e inteirou:
- Deixa ele vim, deixe ele vim!!!
- Ele quem, Bastim? Perguntaram junto Mané e João.
- O governo, esse fi da peste. O governo...

< Alexandre Morais >

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