Respostando pra Mariazinha

sábado, 6 de julho de 2013


Amada Mariazinha,

Quando vi a tua carta,
Esse papezim que ajunta
O que o mau destino aparta,
Morrer mesmo eu não morri,
Mas confesso que senti
O que sente quem enfarta.

Vi tua letrinha farta
De capricho e de beleza.
Pensei em ser o papel
Deitadim na tua mesa,
Pra receber aos pouquinhos
Dos teus dedos os carinhos
Cheinhos de sutileza.

Também vi delicadeza,
Até enxerguei teu riso,
No teu dizer: - Pra casar
Só o amor é preciso!
Isso é tudo que me salva,
Não quero fazer ressalva,
Ando louco, leso e liso.

Só sendo mesmo um aviso
Que Deus do céu me enviou,
Pedindo pr’eu te escrever
Pra dizer como eu estou.
Escrevi meio cismado
E fiquei emocionado
Quando a resposta chegou.

Num sei se tu reparou
Que na carta, assim num canto,
Tava faltando um pedaço,
Embora não fosse tanto,
Fui eu mesmo que rasguei
Porque ali derramei
Um dos pingos do meu pranto.

Zinha, tu não sabe quanto
Que estou arrependido
Por ter deixado o sertão,
Este meu berço querido...
Mas tô pronto pra voltar
Pra todo dia escutar
Tu me chamar de marido.

Não vou voltar iludido...
Iludido eu vim praqui.
Vou voltar pra ser feliz
No simples viver daí,
Ouvindo o que tu me disse
Seria até meninice
Eu não retornar praí.

Já fiz até um croqui
Da nossa bela casinha.
Na frente tem um jardim
Que é pra tu de manhãzinha
Se misturar com as “flor”
E eu descobrir pelo odor
De todas qual é a minha

Lá atrás, lá na cozinha,
Vai ter jeito de palhoça.
C’uma janela bem grande
Pra que por ela tu possa,
Enquanto prepara o almoço,
Só esticar o pescoço
Pra me avistar lá na roça.

Vou tirar madeira grossa,
Ou braúna ou aroeira,
Pra fazer os nossos troços:
Estante, mesa e cadeira...
Mas principalmente a cama
Que pra agüentar quem ama
Tem que ser boa a madeira.

Mas Zinha, que brincadeira
Foi aquela dos “moleque”?
Zinha, criar dez meninos
É pra rico que tem cheque!
Os planos ninguém desmonta,
Mas pelo menos nas “conta”
É melhor nós dá um breque.

Antes que a caneta seque,
Deixe eu te dizer mais uma:
Eu já tô de mala pronta
Coisa pouca nem se arruma
É só empurrar pra dentro
Depois encaicar no centro
Pra espalhar mais a ruma.

Não é mentira nenhuma
Já tô indo pra parada.
Pra onde se pega carro
Com destino à terra amada.
Achando logo um transporte
Chego aí, pra minha sorte,
Daqui pra de madrugada.

Pela Virge Imaculada!
Socorrei-me Santa Marta!
Se eu correr desse jeito
Com medo que o carro parta,
Com medo de aqui ficar,
É bem capaz deu chegar
Mais primeiro que essa carta!

É bem melhor feito tarta-
ruga não querer correr.
É melhor ir devagar
Que é pra nada acontecer...
Afinal já tamo junto
Vamos dividir assunto
Daqui até nós morrer.

Pois assim, meu bem querer
Vou fechando essa cartinha.
Talvez que nós chegue junto
Ou que ela chegue sozinha...
Enfim, lá vai assinado
Como ei de ser chamado
Tião de Mariazinha.

< Alexandre Morais >

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