Interrogando Brotas

quinta-feira, 5 de setembro de 2013



A Barragem de Brotas fica em Afogados da Ingazeira e é uma das maiores reservas d'água do sertão pernambucano. Represa o Rio Pajeú e com quase 40 anos de construída, nunca chegou a níveis tão baixos. Diante do cenário desolador, junto às fotos de Claudio Gomes, fiz estes versos:



Quem te vê não se sustenta

E chora por te ver, Brotas

Sem beber água das grotas

Morrendo aos poucos, sedenta.

Quem já pensou nesse mundo

Avistar teu porão fundo

Já ressecado e sem vida?

Ver as portas das comportas

E tantas espécies mortas

Sobre a terra ressequida?



  Quem já viu, quem já pensou,

Que tu, gigante do rio,

Perderia pra o estio

De quem tanto já ganhou?

Quem já pensou que um dia

O teu solo serviria

Ao solado dos humanos,

Negando vida aos aquáticos

E aos reflexos lunáticos

Como fez por tantos anos?




Em teu leito caudaloso,

Quantos seres habitaram,

Quantas aves revoaram

Em ritmo harmonioso?

Quantas aves sucumbiram

Enquanto outras partiram

Em conjunta revoada?

Ver-se agora solidária

Uma garça solitária

Sem sentir graça de nada.





Quem já pensou, oh gigante,

Ver-te assim tão reduzida

Profundamente abatida

Qual enfermo ofegante?

Quem provocou o estrago

De te resumir a lago

De águas turvas e parcas

De um resto de Pajeú

Que expõe a olho nu

Tuas mais profundas marcas?





Eu bem sei, não me respondes

Pois como sábio, contrito,

Ao invés de dar um grito

No bom silêncio te escondes.

Junto meus prantos aos teus

E deposito em Deus

Minha profana incerteza

De não procurar culpados

E de rogar resultados

Só à santa natureza.



< Alexandre Morais, 05/09/13 >

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