Falou quem sabe o que fala: Aderaldo Luciano (extraído do facebook)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

 
    Auto referenciação à guisa de introdução: — O aparecimento de um novo autor de cordel é motivo de festa e reflexão. Festa porque mais um se vê tocado pela seta cavilosa cordelial. Reflexão para discernir entre o "aventureiro", aquele que não tem compromisso com a arte; o "aproveitador", aquele que pega carona no poderio lúdico cordelístico para nutrir seu próprio egoísmo; o "experimentador", poeta que quer beber na fonte cordeliana e nela se banhar para sentir sua textura, profundidade e temperatura; o "pranteador filantrópico", que chora o fim do cordel e diz que quer ajudar a manter a arte viva; o "ignorante condenado ao inferno", aquele que pensa que conhece a arte, imagina que detém a força poética, zomba dos outros poetas e aproveita qualquer brecha para aparecer e tentar ganhar uns trocados com seus folhetos malacabados; e, por fim, o "escolhido", aquele que vem cumprir a sina, vestir-se de paladino, lutar a luta mais vã, sonhar e realizar. É o que fica. Todos nós que lidamos com o cordel nos deparamos com uns e com outros, sempre.
 
      Há algum tempo fiz uma observação e a complementei com algumas interrogações: — O romance sumiu do cordel. O cordel de gracejo, o cordel pedagógico, o cordel das adaptações estão tomando o lugar das pelejas, dos romances, das aventuras originais. Os cordéis sobre seu Lunga, sobre o peido, sobre a bunda, sobre o chifre, etc. são best-sellers. Mas e os romances? Quem tem fôlego para o cordel original? Motivos não faltam. Faltarão poetas? — Atento a esse questionamento, Felipe Júnior, aproveitando minha passagem pelo Recife, durante a Bienal do Livro, aparteou-me e disse-me: — Tu não querias um romance? Olhaí? — E que belo texto encontrei, porque Felipe narra, descreve e reflete a vida sem perder a poesia, utilizando-a como ferramente para engrandecer sua obra. O Romance de Maria e Ezequiel ou O Grande Golpe do Destino cumpre todos os quesitos do romance cordelístico, aliás, o destino tem sido, desde a fundação, o tema base dos romances. Felipe, com maestria de quem não é novato (vide a breve introdução no início do post) divide o seu relato exatamente como o fizeram os pais do cordel brasileiro: na primeira estrofe faz a proposição, apresentando uma tese a ser defendida durante a narração; nas próximas 9 estrofes apresenta os personagens (Antonio Justino e sua mulher Helena, o coronel João Arraes e os protagonistas Ezequiel e Maria Luiza); por volta da estrofe 10 nos oferece a chave para todo o desenrolar da ação:

Antonio e Helena viram
Que pra ter felicidade
A menina precisava
De pai e mãe de verdade
E, portanto, a entregaram
Ao coronel da cidade.
        A partir daí, o sofrimento dos pais que não podiam criar uma criança por falta total de condições econômicas e sociais é esmiuçado para que os pobres leitores deixemos nascer dentro de nós os pactos ficcionais que nos fazem simpatizar com uns personagens e antipatizar com outros. O narrador de Felipe é um intrometido que sabe tudo o que vai pelo coração dos personagens, prevê os seus atos, lê seus pensamentos e oferece uma leitura própria do mundo. Assim, de vez em quando, ele interrompe a narrativa para nos dar uma reflexão:

O grande golpe da vida
É necessário esquecer,
Pois por mais que ele nos fira
Ou que nos faça sofrer
Temos que buscar na vida
Um motivo pra viver.

De novo:

Entretanto quando o homem
Já se sente muito esperto,
A vida vem e coloca
Seu destino como incerto
Deixando um grande buraco
No seu coração aberto.

E novamente:

A vida nos mostra fatos
Que quer vê pede clemência,
Mas quando temos razão
E se agirmos com prudência
Pra ter um bom resultado
Baste termos persistência.
 
       Esses três momentos reflexivos do narrador são as marcas para anunciar a mudança de ação e erguer novos cenários. A primeira, marca o preenchimento da lacuna da perda da filha com o anúncio do nascimento de Ezequiel; a segunda, corta para o fato que transformará a vida de todos os personagens e o aparecimento de outros personagens coadjuvantes: o casamento de uma linda donzela que tocará o coração de Ezequiel; e a terceira, nos traz o clímax da narrativa (que deixarei em aberto para que você, meu nobre leitor, contacte o autor e peça um exemplar do romance).
 
        Felipe Júnior é um professor de Filosofia, mas em sua base é um poeta repleto de virtudes e atuações. Lá no Recife é figura presente na cena cultural. Com esse romance, trilha o caminho da Geração Princesa, dialoga com a Geração Prometida e consolida-se meio à Geração Coroada do Cordel Brasileiro, esta que perfaz a contemporaneidade cordelística. Felipe é um escolhido.

1 comentários:

Achille Droit disse...

Obrigado, poeta, por repercutir esse meu breve texto sobre o retorno do romance ao cordel com nosso querido Felipe Júnior no protagonismo poético. Abraço!

Postar um comentário

 
 
 
 
Template modificado por WMF-Mídia Design | (87) 9918-2640 / 9620-2552