terça-feira, 18 de maio de 2021

O dia em que o Pajeú foi bater no Ceará

maio 18, 2021 Por Alexandre Morais Sem comentários

 

Lindoaldo Campos
Mestrando em História dos Sertões
Membro do CPDoc-Pajeú


   Você conhece esse mapa do Rio Pajeú?



   Estranho, né? Vamos tentar entender o que passa: a primeira informação que tem no mapa é o Morro de Marajaitiba, palavra tupi que significa “rio das palmeiras”.

   Certamente é uma indicação, porque Pajeú (também grafado Pajaú, Pajahú, Pajehú e Pagehu em documentos antigos) também é um nome tupi e significa “rio do Pajé” (ou “rio feiticeiro” mesmo, “talvez porque corre para o Ocidente (acima)”, como diz Baptista Siqueira no livro Os cariris do Nordeste).

   Vem de “pajé” = sábio, sacerdote, médico e líder espiritual dos indígenas + “y” = rio, água (em seu Dicionário de topônimos brasileiros de origem tupi, Luiz Caldas Tibiriçá ensina que o y representa um fonema indígena gutural, estranho ao idioma português e difícil de ser pronunciado, e por isso às vezes é escrito como i ou com u).

   Pajeú também é o nome de uma planta utilizada na medicina popular no tratamento de doenças venéreas e inflamações intestinais. Seu nome científico é Triplaris gardneriana Wedd e que ocorre de forma natural na caatinga (do tupi “caa” = mato + “tinga” = branco).

 


   Aliás mais aliás ainda, nosso Alto Sertão do Pajeú tem um monte de topônimos (nomes de lugares) de origem indígena – o que indica sua forte presença naquele tempo e nos dias de hoje:

    Ambó - Significa “esta mão”, a quantidade “cinco” (Eduardo Navarro, Tupi antigo)

  Borborema - De por-por-eyma, que significa sem moradores, sem habitantes; o deserto, a solidão, o sertão (Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional, p. 208)

 Ingazeira - “Vocábulo híbrido tupi-português: juntando i’ngingá, que quer dizer ‘úmido, ensopado, fruta cheia d’água’, com o sufixo em português eira” (Homero Fonseca, Pernambucânia: o que há nos nomes das nossas cidades)

   Iguaraci - “A interpretação prevalecente para Iguaraci é sol. Explica o sociólogo Roberto Harrop Galvão, estudioso do tupi antigo, que, na realidade, sol é Guaraci (de guara: seres viventes e ci: mãe, ou seja, o sol, entidade feminina para os tupis, era a Mãe dos Viventes). Como já havia uma cidade em São Paulo com esse nome, foi adotada a forma iguaraci” (Homero Fonseca, Pernambucânia)

  Itapetim - Antigo povoado e distrito de Umburanas (de “ymbú-rana, o imbu falso; semelhante ao imbu” (Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional), o nome Itapetim é uma redução de Itapetininga (porque em São Paulo já havia outro com esse nome), que significa “pedra achatada seca, laje seca” (Eduardo Navarro, Tupi antigo)

  Tabira - “O tronco empinado, a haste em pé, o madeiro erguido. Nome de um principal [cacique] dos Tabajaras, que se converteu ao cristianismo; tão valente e astucioso era na guerra que, no seu tempo, era tido como o talismã das vitórias. Pode ser também corrupção de itá-bira, a pedra empinada ou erguida” (Teodoro Sampaio, O tupi na geografia nacional)

  Tuparetama - “'Terra de Deus – o céu’ (Tupã: entidade divina dos tupis, criador dos trovões, mais retama: região, terra)” (Homero Fonseca, Pernambucânia)

    Aí você pergunta: Mas por que você fala “nosso Pajeú”?

   Ora, porque, segundo as outras informações do mapa lá do começo, o Rio Pajeú de que ele fala é onde nasceu, criou-se e até hoje vive a cidade de Fortaleza.

   Isso mesmo: Fortaleza, a capital do Estado do Ceará (outra palavra tupi, de “ce” = pessoa de classe superior + “ará” = homem, macho viril), começou com o Forte Schoonenborch (forte = fortaleza), que foi construído pelo holandês Matias Beck na margem esquerda de um rio de lá que tem o mesmo nome do nosso: o Rio Pajeú, como mostrou o historiador Raimundo Girão em seu livro A cidade do Pajeú – de cuja capa tiramos o mapa.

 


   Lá em Fortaleza, o Pajeú é esse rio que aparece no primeiro mapa da cidade, elaborado em 1726 por Manuel Francês, capitão-mor da Capitania do Ceará Grande:

 


   Atualmente, esse é mapa do percurso do Rio Pajeú-pai-mãe de Fortaleza, que nasce próximo às ruas Silva Paulet, José Vilar, Bárbara de Alencar e Dona Alexandrina e deságua (foz) no Poço da Draga, onde atualmente existe o estaleiro da Indústria Naval do Ceará.

 


    Já o Rio Pajeú-pai-mãe do Sertão do Pajeú de Pernambuco nasce a uma altitude de aproximadamente 600 metros na Serra do Balanço, Município de Brejinho, próximo à Serra dos Cariris Velhos, “bem no declive da montanha, onde as águas se dividem: de um lado Pernambuco, do outro a Paraíba” (Luiz Cristovão dos Santos, Pajeú: um rio do sertão).

   Mais extenso de Pernambuco, o Rio Pajeú percorre 353 km até desaguar no lago de Itaparica, no curso do Rio São Francisco. Sua bacia hidrográfica é constituída pelos rios Pajeú Mirim, Riacho São Domingos e Riacho do Navio (isso mesmo: o riacho da música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas de Carnaíba – do tupi “karana’yba” = carnaúba, variante de palmeira).

   Boa parte da Bacia Hidrográfica do Pajeú fica no Planalto da Borborema e não é brinquedo não: tem 16.686 km² e alcança vários municípios:

 


   Outra coisa: como nome de lugar, não é só no Ceará e em Pernambuco que tem Pajeú não.

   No Estado do Piauí há um município chamado Pajeú do Piauí;

   No Estado de Minas Gerais há um município chamado Cachoeira de Pajeú – que no início de sua história, subordinado ao Município de Fortaleza de Minas (!);

  No município baiano de Caetité há um distrito chamado Pajeú do Vento;

   Na cidade de São Paulo/SP, no bairro Engenheiro Goulart há a Rua Alto Pajeú;

   Há várias ruas chamadas Rua Pajeú, como nas cidades de São Paulo/SP (nos bairros Vila Mariana e Saúde), Camaragibe/PE (no bairro Vera Cruz), Teresina/PI (no bairro Ininga), Juazeiro/BA (no bairro São Geraldo), Diadema/SP (no bairro Taboão), Rio de  Janeiro/RJ (no bairro Jardim Carioca), Cascavel/PR (bairro São Cristóvão) e Recife/PE (no bairro Ibura, com o nome de Rua Rio Pajeú).

  Mas vamos terminar falando sobre o Ceará, porque outra vez em que o Pajeú foi bater na terra de Belchior foi quando o poeta Rogaciano Leite, nascido às margens do Rio Pajeú de Pernambuco, foi morar em Fortaleza e ficou tão de lá que lá casou, teve seis filhos, formou-se em Letras Clássicas, realizou o primeiro Congresso de Cantadores em um teatro, ganhou três Prêmios Esso de Reportagem, lá seu corpo foi sepultado e hoje essa cidade tem uma importante avenida com seu nome.

   Quem sabe assim quiseram os Pajés dos rios de lá e da cá, para que o poeta de Os trabalhadoresEulália e Se voltares continuasse perto deles, entoando os versos de sua infância feliz:

   Ah! Que tempo de alegria
   Quando bebendo poesia
   De calça curta eu corria
   À margem do Pajeú,
   Comendo jaboticaba,
   Melão, mamão e goiaba,
   Cambuí, jambo e quixaba,
   Maracujá e umbu!

   

  É realmente uma grande história essa do poeta que, com razão de cantar, levou o Pajeú das Flores pra conhecer o Pajeú do Forte.

  Mas essa é outra história... E ô Pajeú de poesia pra ter história!

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