Meu pai foi preso duas vezes durante a ditadura. Foi torturado, perseguido e passou 40 dias preso na Ilha das Flores, 20 deles numa solitária.Durante as sessões de tortura, ele repetia que não tinha nada a ver com aquilo. Que só fazia música e desenho.Até que, um dia, deram um violão para ele.
Meu pai tocou.
E aquele violão fez uma coisa que as palavras não conseguiram fazer sensibilizou o homem que o torturava. As torturas pararam.Depois quiseram que ele tocasse na festa do comandante. Meu pai respondeu que só tocaria se fosse livre. Ele foi solto. Mas, antes, ainda teve que tocar na festa dos oficiais.Essa é uma história que eu cresci ouvindo. Não é um capítulo de livro de História para mim. É a história do meu pai.
Por isso, quando alguém me pergunta por que determinadas posições políticas são tão pessoais para mim, é isso.Como eu consigo olhar para a história do meu próprio pai um homem preso e torturado por uma ditadura e tratar como uma questão abstrata aquilo que, para a minha família, tem nome, memória e cicatriz? Eu não consigo.

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